Estilhaços de discursos

CORREIO BRAZILIENSE
09/09/08
Crítica – Anticlássico
Estilhaços de discursos
Sergio Maggio
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Alessandra Colasanti faz crítica aguda ao consumo de arte |
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Arrancada do âmbito de obra de arte, Bailarina de Vermelho dá para tagarelar sobre a natureza do discurso artístico. Ela está inserida em uma espécie de aula-espetáculo, no qual se vendem conceitos, experiências, idéias e produtos. Enquanto conta as peripécias pelo mundo (ela fundou a arte nos sinais de trânsito, por exemplo), comercializa clássicos da literatura a R$ 1 (na verdade, livretos de cordel) e frasquinhos do ar de Paris. Numa aparente crítica ácida à estratificação e à soberba do pensamento acadêmico, Anticlássico aponta para questões mais urgentes como a banalização do consumo voraz ao mercado de arte e o papel dos intelectuais na pós-modernidade (ops!, essa frase pode ser deglutida pela Bailarina de Vermelho).
Alessandra Colasanti coloca-se em cena como presença viva dessa contradição. Filha de um dos casais mais respeitados da inteligência brasileira, os escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti, ela dialoga com as referências que provavelmente colheu em casa e nos círculos de vivência dos pais. O que forma jogo com a platéia, que detém esse dado. Quando a personagem recebe um telefonema da mãe, o riso fica cúmplice. O humor, a ironia, a sátira e a participação de João Velho costuram essa narrativa formada de estilhaços.
Autora do texto, diretora de cena e, sobretudo, atriz, Alessandra Colasanti domina um espetáculo complexo, já que o texto, segundo a segundo, fecha-se na cabeça do espectador, ativado a receber informações sensoriais múltiplas, muitas vindas do corpo/voz da própria personagem, num poderoso jogo de simultaneidade. Numa projeção de vídeo, milhares de turistas famintos disputam uma foto do sorriso da Monalisa (tema que rendeu bela crônica do pai Affonso), enquanto a Bailarina de Vermelho ilustra com comentários díspares e o assistente Hamlet segue em alguma atividade paralela, como a de servir água francesa.
Divertido e inquietador, Anticlássico dialoga com a esterilidade dos discursos do homem contemporâneo que, na tentativa de encontrar chave de entendimento para as suas angústias, encerra-se em si mesmo e na própria incapacidade de se comunicar. Não à toa, a Bailarina de Vermelho fala pela rádio Utopia AM e “pelo paradoxo” pede o voto do cidadão para ser a prefeita da terceira margem do rio. O que parece dar em nada, diz muito…ou não. (Sérgio Maggio)
CORREIO BRAZILIENSE
September 9, 2008
Review – Anticlássico
Snippets of discourse
Sergio Maggio
Alessandra Colasanti critiques the acute consumption of art
Plucked from the domain of art work, the Ballerina in Red bursts into chatter about the nature of the artistic discourse. She is embedded into a sort of show-class, where concepts, experiences, ideas and products are sold. While she narrates her escapades around the world (she founded the art in traffic signs, for example), she sells literature classics for R$ 1 (actually, Brazilian pulp fiction booklets) and flasks of Paris air. In an apparent acid criticism of the stratification and pride of academic thought, Anticlássico points to the most urgent questions, such as the trivialization of the voracious consumption of the market of art and the role of intellectuals in post-modernity (oops, this sentence can be savored by the Ballerina in Red).
Alessandra Colasanti stands on the scene as the living presence of this contradiction. Daughter of one of the most respected couples in the Brazilian intellectual set, writers Affonso Romano de Sant’Anna and Marina Colasanti, she dialogues with references she probably gathered at home and in the milieu her parents are immersed into, very much in tune with the audience, which possesses this data. When the character gets a call from her mother, the laughter is complicit. The humor, the irony, the satire and João Velho’s participation weaves this patchwork narrative.
Scriptwriter, stage director and, especially, actress, Alessandra Colasanti dominates a complex show, since the script, second by second, takes over the head of the spectator, enabled to receive multiple sensory information, many of them from the body / voice of the character itself, in a powerful set of simultaneity. On a video screen, thousands of hungry tourists vie for a picture of Monalisa’s smile (a theme which yielded a nice article by her father Affonso); while the Ballerina in Red illustrates it with disparate comments and her sidekick Hamlet goes on with a parallel activity, such as serving French water.
Fun and disturbing, “Anticlássico” communicates the sterility of the contemporary discourse of modern people who, in an attempt to find the key to understanding their angst, close up in themselves and in their own inability to communicate. It is no wonder the Ballerina in Red speaks on Utopia Radio AM and through “paradox” asks for the vote of the citizens in order to be the mayor of the third riverbank. What seems to get nowhere says a lot … or does not. (Sérgio Maggio)









