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JORNAL DO BRASIL
Caderno B - capa
13 de setembro de 2008
A atriz Alessandra Colasanti faz sucesso com personagem retirada da peça ‘Anticlássico’, em cartaz na Casa Laura Alvim, organizando blog, site de fotos e intervenções urbanas
Rachel Almeida
Obedecendo à sua natureza inquieta, a Bailarina de Vermelho se recusou a ficar presa no papel de protagonista da elogiada peça Anticlássico – Uma desconferência e o enigma vazio, em nova temporada na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Faz um ano que ela se rebelou e decidiu buscar outros suportes que sustentassem sua verborragia. A idéia, ambiciosa, de promover o cruzamento entre teatro, vídeo, performance, cinema, internet, literatura, grafite, intervenção urbana, fotografia e quadrinhos deu certo. A personagem criada pela atriz, escritora e diretora Alessandra Colasanti hoje movimenta, ao lado do calado escudeiro Hamlet (João Velho), blog, site de fotos, vídeos no YouTube e é constantemente vista por aí empunhando máquinas fotográficas e microfones. Atualmente, faz campanha gaiata para a prefeitura de “3ª margem do Rio”.
– A idéia de ampliação das atividades da Bailarina de Vermelho surgiu no festival riocenacontemporânea, em outubro – conta a atriz, filha dos escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. – Ia a três lugares diferentes caracterizada, fazendo anotações e colhendo depoimentos sobre a arte atual.
No Salão Carioca de Humor
A peça que deu vida à impagável personagem começou como um esquete de 20 minutos no Festival Contemporâneo Oi Futuro em dezembro de 2006. Foi incluída no Salão Carioca de Humor, no aniversário da Casa do Saber, até estrear no Espaço Sesc, em agosto do ano passado. De lá para cá, vem arrancando elogios – agora também fora do Rio. Semana passada, foi recebida por uma platéia lotada no CCBB de Brasília (em teatro de 400 lugares, até agora seu maior público) e se prepara para apresentações no Festival Porto Alegre em Cena, um dos mais prestigiados do país.
– Foi uma conquista grande manter a peça em cartaz, sem patrocínio, diante de uma lógica do novo – observa a atriz.
O espetáculo é construído como uma espécie de conferência em que a Bailarina desfia histórias e (pseudo) conhecimentos, usando citações inacabáveis de nomes como o artista Marcel Duchamp, o cantor Charles Aznavour o filósofo Michel Foucault e o quadro Mona Lisa. Quem viu sabe que não é simples arriscar uma sinopse.
– Tem gente que fala que faço uma crítica à retórica do academicismo, mas não vejo assim. É uma sátira – explica a ex-estilista, formanda em teoria do teatro pela Uni-Rio. – É resultando tanto de uma fascinação como da observação de incongruências no discurso teórico. Também expresso uma angústia diante da arte feita hoje. Se conseguimos pluralidade e liberdade também herdamos a ansiedade.
Fica a dúvida: o espetáculo se destina a qualquer público? E se as citações não alcançarem a platéia?
– Claro que você faz o espetáculo para agradar a todos. Acho que existem várias camadas de significado – acredita a atriz. – Se você é professor, faz parte daquele mundo, vai delirar. Se você não é, a peça vai funcionar de maneiras diferentes. Mesmo quem não sabe o que é retórica identifica o que é um discurso vazio. Pode ter um conteúdo sofisticado, mas há apelos populares como o humor. O bom é que, sendo a autora, posso mexer na peça na hora em que quiser.
Desde a infância, Alessandra viveu cercada de livros – literalmente, eles se apinhavam nas inúmeras estantes do apartamento. Mas, para desespero dos pais, não se entusiasmava pela leitura. Salvou-a da condição de ovelha negra uma hepatite aos 14 anos que a deixou seis meses de molho.
– Ganhei de amigos Admirável mundo novo (Aldous Huxley) e A metamorfose (Franz Kafka) e tomei gosto – lembra ela, que, hoje, se interessa mais por filosofia e teoria teatral do que por ficção. – Na verdade, mudei meu estilo: era toda “pleiba”, parafinada, ia à praia no Posto 10… Comecei, desde então, a descobrir coisas mais alternativas.
Alessandra concilia as atividades em torno de Anticlássico com outros projetos. Co-dirigiu Regurgitofagia e Dinheiro grátis, com Michel Melamed; faz cinema – participa dos ainda inéditos É proibido fumar, de Anna Muylaert, e Espiral, de Paulo Pons – e de outros espetáculos como Ovo frito, de Moacir Chaves, que vai a Moçambique em 2009. Mas a Bailarina de Vermelho exige atenção. Planeja uma intervenção na Bienal do Vazio em São Paulo com um alter ego, a Bailarina de Branco; também vai participar da ocupação do Teatro Gláucio Gil com o Coletivo Improviso, promovendo talk show; quer lançar um livro e promover uma exposição multimídia. Não admite tempo perdido.( Rachel Almeida)





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