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A ALTA CULTURA COMO PRIMA-DONA

Posted in Uncategorized by alessandra colasanti on February 25, 2009

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A ALTA CULTURA COMO PRIMA-DONA 

por ROBERTO ATHAYDE

(dramaturgo autor de Apareceu a Margarida)

 

A nova peça de Alessandra Colasanti, Anticlássico Uma Desconferência e o Enigma Vazio, apresentada como “work in progress” no Salão Carioca de Humor, é uma proposta que ao mesmo tempo celebra e ataca a alta cultura no que ela tem de mais ambíguo: no seu narcisismo. A atriz/autora aparece caracterizada como prima ballerina dando uma ‘desconferência’ que, para começo de conversa, derruba a quarta parede do palco e faz o público partícipe de uma ação dramática fictícia. O público não bisbilhota uma ocorrência discreta através do mistério da contemplação, mas recebe um papel a ser representado, e sua passividade de platéia é ativada por várias atribuições. A principal me parece ser a pré-suposição de que não veio para um mero divertimento teatral e sim para escutar a palavra erudita de uma conferencista que questiona a vanguarda da alta cultura: o dilema de um pós-modernismo que se desincumbe até da obrigação mínima de ter sentido. A peça pede ao público que faça o papel de quem tem uma avidez cultural suficiente para abordar o próprio ‘enigma vazio’, com o seu cortejo de perplexidades, com o negativo, com os limites da epistemologia e com a própria finitude. Mas lhe oferece também um outro papel, muito mais apetitoso, que é o de receptor da alta cultura como simples cortesia, o apanágio mais glamoroso de que nós humanos podemos usufruir. A ‘desconferencista’ tem um assistente (o ator João Velho) que nos dá cultura materializada em chá, café, biscoitinhos e alguns pequenos trechos de música. Uma vez o público colocado nesse papel, simultaneamente de crítico sério porém merecedor do refresco de um pequeno lanche, o texto despeja um caudal  de cintilante ironia em que o ‘enigma vazio’ se apresenta recheado do mais completo e descarado narcisismo. A bailarina nos lança uma bateria de dúvidas e até queixumes que soam humildes em seu desejo de auto-desconstrução ao mesmo tempo em que displicentemente vai edificando e fabulando o ego monstruoso de uma celebridade mitômana. O name-dropping da diva vai num crescendo que logo atinge o divertidíssimo nonsense de seus disparates ao passo que o assistente da ‘desconferencista’ começa a nos brindar com o refresco de suas oferendas. A alta cultura é mostrada como embuste, cortesia e divertimento. Mas acontece que o assistente é um punk. Ele é uma figura dúplice de solicitude com um ar vagamente ameaçador. Logo se esboça uma possível relação da estrela com o acólito, que hesita entre o profissional e o íntimo. Essa relação introduz um outro plano imbricado no agenciamento de ironias da ‘desconferência’. A ironia tem a virtude de enunciar ao mesmo tempo em que abre um espaço indicando o contrário do que está dizendo. O grande Vladimir Jankélévitch, em seu livro L’Ironie, diz (minha tradução): ‘É preciso escolher entre a intimidade e a justiça. Ironizar é escolher a justiça’.  Nesse contexto, em Anticlássico, Alessandra Colasanti escolhe sempre a justiça, mas insinua que ela possa não ser constante. Sua descontração amiga e modesta para com a platéia é mostrada em flagrante falsidade através do delírio megalômano da diva que alardeia intimidade só com celebridades, vivas ou mortas, num engraçadissimo turbilhão de absurdo. Só o ajudante, com sua postura ambígua de punk prestativo, parece ter um potencial de ameaçar a bela solidão da prima-dona com seu enigma vazio, que se pavoneia tentando ser simples… na ribalta, vestindo um tutu vermelho. Talvez fora do palco a prima-dona caia numa verdadeira intimidade (já necessariamente injusta segundo o ilustre filósofo franco-russo), mas que, dada a atuação do personagem punk de João Velho, se nos antoja talvez horrivelmente sadomasoquista. A estrela sobe: até os páramos de uma alta cultura que se ilumina e se glamoriza até a desconstrução aporética, mas suspeitamos possa ser humilhada na obscuridade do camarim. 

         A peça de Alessandra Colasanti, com sua saudável derrubada da quarta parede e sua estonteante escalada no humor sofisticado, desconstrói a alta cultura deixando-a completamente vulnerável ao riso. Mas também edifica a inteligência e envolve o público em certos dilemas básicos da vida e assim acumula todos os méritos do ato teatral. (Roberto Athayde, 2007)

 

HIGH CULTURE AS A PRIMA DONNA
by ROBERTO ATHAYDE
(playwright, author of “Apareceu a Margarida” )

The new play by Alessandra Colasanti, Anticlássico Uma Desconferência e o Enigma Vazio (Anti-classic – a de-conference and the empty enigma), performed as a “work in progress” in the Salão Carioca de Humor (Carioca Humor Lounge), is a proposal which, concomitantly celebrates and bashes high culture at the core of its ambiguity: its narcissism. The actress/playwright is described as a prima ballerina giving a “de-conference” who, to begin with, brings down the fourth wall of the stage and makes the audience take part in a fictional drama. The audience does not peek into a discreet occurrence through the mystery of contemplation, it is actually given a role to play, and its passivity as an audience is activated by various tasks. The main one is, it seems to me, the assumption that it has not come to a mere theater entertainment, but to hear the erudite word of a lecturer who questions the vanguard of high culture: the dilemma of a post-modernism that acquits itself of even the obligation of merely making sense. The audience is asked to play the role of someone who has enough cultural eagerness to address the very “empty enigma”, with its host of concerns, the negative, the limits of epistemology and the very finitude. But it also offers the audience a different role, much more appetizing, of receiver of high culture as a mere courtesy, the most glamorous bounty human beings can enjoy. The ‘de-lecturer’ has a sidekick (actor João Velho –Old John), who brings us culture embodied in tea, coffee, biscuits and some small snippets of music. Once the audience is placed in this role, both as a critic but also seriously worthy of a refreshing snack, the script pours out a stream of scintillating irony in which the “empty enigma” displays the most unmitigated and barefaced narcissism. The ballerina poses a battery of questions and even grievances, which sound humble in her desire for self-deconstruction, while, at the same time, she goes on carelessly building and concocting the monstrous ego of a mythomaniac celebrity. The diva’s name-dropping keeps on mounting to a crescendo that soon turns into hilarious nonsense while the “de-lecturer’s” sidekick begins to provide us with the refreshment of his offerings. High culture is debunked as a hoax, just fun, a courtesy. But it just so happens that the sidekick is a punk. He is a dual figure of solicitude with a vaguely menacing air. Soon, the outline of a possible relationship between the star and the acolyte, who hesitates between a professional and intimate demeanor, is hinted at. This relationship adds another overlapping level in the management of the “de-conference” ironies. Irony has the virtue of making room to indicate the exact opposite of what you say. The great Vladimir Jankélévitch in his book “L’Ironie” says (my translation): ‘We must choose between intimacy and justice. By mocking, we choose justice.” In this context, in Anticlássico Alessandra Colasanti always chooses justice, but insinuates it might not be constant. Her friendly and humble carefree attitude with the audience is shown as a flagrant falsehood by the diva’s megalomaniacal delusion, who boasts closeness only with celebrities, living or dead, in a hilarious maelstrom of absurdities. Only the sidekick, with his ambiguous helpful punk attitude, seems to have the potential to threaten the beautiful solitude of the prima donna with her empty enigma, who peacocks around by striving to be simple … in the limelight, wearing a red tutu. Perhaps offstage the diva falls into a real intimacy (necessarily unfair according to the illustrious Franco-Russian philosopher), but, given the actions of the punk character João, a dreadful sadomasochism pops into view. The star rises to the very upper reaches of high culture, which shines through and glamorizes the aporetic deconstruction, but we suspect this star may be cut down to size in the dark dressing room.

Alessandra Colasanti’s play, with her healthy demolishment of the fourth wall and breathtaking rise into sophisticated humor, deconstructs high culture, leaving it completely vulnerable to laugh. But it also builds up intelligence and involves the audience in certain basic life dilemmas and thus accumulates all the merits of the theatrical act.

 

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