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alessandra, resenha epistolar

Posted in Uncategorized by alessandra colasanti on February 25, 2009

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resenha francine jallageas

Alessandra

motivada por tua peça porque ela me diz respeito,
te escrevo umas notas de rodapé:
começo pela cor que tingiu os clássicos em tua peça;
o vermelho insistente
(clássico que é clássico deve ser clássico porque é insistente)
da tua bailarina; do batom que delimita-emoldura o contorno da tua boca por onde você emite os tons, os modos, os trejeitos, os fôlegos, os agudos e os graves que os clássicos, quando pensados, citados, esvaziados, blefados, evocam,
ao colã, tule, sapatos, meias, penduricalhos do teu cabelo, esmaltes da tua unha, bebida do teu copo – conjunto excessivo que primeiro avisto conformado em um ângulo de 90 graus, cujos pés estão onde eu esperaria a cabeça e a cabeça onde eu esperaria os pés, alongando-aquecendo os músculos para um balé, para uma dança enfim, ou não, ou simplesmente ali, como deve ficar toda bailarina quando termina a música e fechamos a clássica caixinha de músicas.
E como a clássica caixinha de músicas, uma vez dada a corda, de dentro dela e sobre ela eu vejo um corpo ereto, ao centro, num eixo, a realizar movimentos sem quase sair do lugar, girando em círculos enquanto houver corda.
Tua corda (vermelha, sem dúvida) – a enorme produção de imagens, de literatura, de música, de arte e de cultura do século XX, é que te salva, porque não acaba: é clássica. E se te salva,
também me salva,
terminada a peça, ainda temos corda.
Dizer anticlássico não é o mesmo que dizer clássico? Se me ponho a pensar o que chamamos clássico e o que então poderemos chamar anticlássico, não vejo senão uma coisa só, acrescida dessa fenda: anti. Isto é, um pouco cindido, um pouco metamorfoseando-se em outro, carregando um passado, produzindo um futuro, apontando para um lugar que no entanto só pode ser visto quando nos situamos no antigo lugar (que se desfaz), pois aquilo que consagra-se clássico carrega, se relaciona com os seus antecessores, instaura, assim como você propôs nesse palco, uma tensão ante os clássicos, (está atrás da bailarina-conferencista-jornalista-narradora as imagens do clássico, tal e qual o espelho que toda caixinha de músicas que se preze revela na parte inferior de sua tampa) enumerando-os, trazendo-os, projetando-os e precisamente nesse movimento desfazendo-os, espelhando já uma outra coisa que os nega.
O anticlássico se aproxima da palavra de mesmo radical, emprestada da biologia: o antídoto – contem em si aquilo que quer desfazer e desfaz, contraveneno que é, envenena fazendo uso de uma mesma feitiçaria que o engendra.
O espelho reflete e ao mesmo tempo cega, ou, o reflexo produz uma similitude que já é outra.
O anticlássico é como o recém-nascido; extensão e constituição de uma mãe e que, no entanto, é outro, e que, à medida que cresce, é cada vez mais outro e ao mesmo tempo, irremediavelmente herdeiro dessa mãe.
Dê o nome de tradição à mãe e chame o pai de clássico.
O clássico é o piano de Cage e o anticlássico é o yamarra de João Velho.
Estamos ouvindo, por quatro minutos e trinta e três segundos, os dois, em silêncio. (francine jallageas)

2.10.07

publicada em:

http://www.martaatravesdoespelho.blogspot.com/

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